domingo, 6 de janeiro de 2008

ARTIGO COM MENÇÃO AO MANOEL DA SILVA BRANDÃO

DOIS TAUBATEANOS NA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

A Inconfidência Mineira, que se comemora amanhã, 21 de abril, deveria merecer especial festividade na cidade de Taubaté. É que entre os mais importantes personagens desse movimento libertário do final do século 18 estavam dois filhos de Taubaté, o padre Carlos Correia de Toledo e Melo e seu irmão Luiz Vaz de Toledo Piza. Ambos teriam relevante papel militar quando a revolta fosse desencadeada. O valente padre Carlos, vigário da vila de São José del Rei, hoje a cidade de Tiradentes, assumira o encargo de mobilizar e comandar 100 cavaleiros armados, com os quais tomaria toda a região do Rio das Mortes.

Luiz Vaz de Toledo Piza, que era sargento-mor da Cavalaria Auxiliar, comandaria uma tropa que ficaria postada no local conhecido como Registro do Paraibuna, na Serra da Mantiqueira, onde seriam emboscados os soldados portugueses que o vice-rei Dom Luiz de Vasconcelos certamente mandaria do Rio de Janeiro para socorrer o regimento dos Dragões de Minas Gerais, tão logo fosse informado de que os inconfidentes teriam desencadeado a batalha pela tomada do poder ocupado pelo visconde de Barbacena, com o propósito de proclamar a independência da capitania e instalar uma república a ser inicialmente presidida por Tomás Antônio Gonzaga. Da tropa de infantaria de Luiz Vaz, que ele se incumbia de recrutar e organizar, fariam parte inclusive índios aculturados do Litoral Norte paulista, dos quais ele era amigo.

Convém lembrar que Taubaté tem muito a ver com a história de Minas Gerais. Foram bandeirantes saídos da Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté que se embrenharam por matas, montes e rios naquela direção, em busca de minérios e pedras preciosas, desde que um deles, Antônio Rodrigues Arzão, descobrira ouro, em 1693, nos sertões de Cuiaté. E foi nessas aventurosas andanças que os desbravadores taubateanos foram fundando as primeiras cidades mineiras.

A mais antiga delas, Mariana, foi fundada pelos bandeirantes Salvador Fernandes Furtado de Mendonça e Miguel Garcia de Almeida, ambos moradores de Taubaté. Também da cidade paulista do Vale do Paraíba partiu o bandeirante Antônio Dias, fundador de Vila Rica, hoje Ouro Preto, que à época da Inconfidência era a maior cidade do Brasil, com cerca de 100 mil habitantes (Salvador tinha 50 mil, o Rio de Janeiro pouco mais de 30 mil, e São Paulo não ia além de 25 mil habitantes). Outro bandeirante de Taubaté, Tomé Portes del Rei, fundou São João del Rei e São José del Rei, essa última sendo hoje, como anteriormente mencionado, a cidade de Tiradentes. Airuoca também foi fundada por um bandeirante taubateano, João de Siqueira Afonso.

Os dois inconfidentes paulistas eram filhos de Timóteo Correia de Toledo, que foi quem erigiu a histórica Capela de Nossa Senhora do Pilar, atual sede do Museu de Arte Sacra no centro de Taubaté. Eram irmãos do bispo Rodovalho, cujo nome era Antônio de Melo Freitas, mas ao tornar-se sacerdote franciscano passou a ser chamado frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, tornando-se mais tarde bispo em Angola, na África. A importância do padre Carlos Correia de Toledo e Melo na Inconfidência Mineira fica evidente quando se sabe que Tiradentes, ao se sentir desiludido por não encontrar total disposição para a luta entre seus conterrâneos mineiros, declarou ao inconfidente Alvarenga Peixoto que só percebia duas exceções entre os companheiros de conjura, por coincidência dois sacerdotes: "que, tendo falado a muita gente, todos queriam mas nenhum queria resolver a pôr em campo; só os que achara com mais calor foram o vigário da Vila de São José, Carlos Correia de Toledo, e o padre José da Silva e Oliveira Rolim". Os dois padres eram, de fato, os mais valentes e decididos participantes da revolta, dois autênticos guerreiros.

Um aspecto singular na atuação do padre Carlos Correia de Toledo foi a sua disposição de continuar com os planos de luta pela independência mesmo depois da traição de Silvério dos Reis. Com o visconde de Barbacena já sabendo dos planos da revolta e da identidade dos principais conjurados, a quase totalidade dos inconfidentes desistiu da sublevação e passou a tentar se salvar. Convencido, entretanto, de que já não era possível escapar da prisão, o padre Carlos reuniu em sua bela casa em São José del Rei um pequeno grupo de que faziam parte seu irmão Luiz Vaz, Alvarenga Peixoto e Francisco Antônio de Oliveira Lopes. Eles se convenceram de que a revolta precisaria ser desencadeada a qualquer custo, porém não mais em Vila Rica, como planejado, e sim no Arraial do Tijuco (atual Diamantina), que estava sob a responsabilidade do inconfidente padre Rolim, que lá contava com apoio das principais autoridades civis da Intendência dos Diamantes e do próprio comandante da tropa dos Dragões, o capitão Manoel Brandão. É do padre Carlos Correia de Toledo esta frase que testemunha toda a sua valentia: "Mais vale morrer com a espada na mão do que como carrapato na lama".

Infelizmente, porém, o plano desse derradeiro grupo de conjurados também falhou. Mandaram um emissário ao tenente-coronel Freire de Andrada, inconfidente que comandava as tropas dos Dragões em toda a Capitania, pedindo que marchasse para o Arraial do Tijuco e lá se juntasse ao padre Rolim e ao intendente Beltrão para deflagrar a revolta, mas Vitoriano Gonçalves Veloso, um alfaiate de grande resistência física que levava celeremente a mensagem, foi preso no caminho.

Quando se tentou enviar outra vez o apelo para que se desencadeasse do levante, dessa feita levado por um membro do próprio grupo, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, o tenente-coronel Freire de Andrada mostrou-se acovardado, procurou dissuadí-lo da luta e o convenceu a denunciar tudo, o que fizeram ambos por escrito. De todo modo, os nomes dos dois taubateanos ficaram na história pela sua disposição, até o fim, de guerrear pela independência. O padre Carlos, por sinal, calculava que a guerra duraria três anos, porque se esperava que ela se espalhasse pelas demais capitanias do país.

As próprias autoridades portuguesas, no processo de julgamento dos inconfidentes, não deixaram dúvida sobre o papel decisivo que caberia aos dois irmãos taubateanos: tanto o padre Carlos Correia de Toledo e Melo quanto Luiz Vaz de Toledo Piza foram condenados à forca, pena reservada apenas aos líderes da sublevação. Ambos tiveram, entretanto, suas condenações comutadas para penas de prisão e exílio. Luiz Vaz foi condenado a degredo perpétuo em Angola, vindo a morrer em Luanda, aos 68 anos de idade. Padre Carlos foi mandado para a prisão em Portugal, onde acabou morrendo aos 72 anos, em 1803. Uma foto da imponente casa na qual ele vivia em São José del Rei figura em meu livro "Entre a Cruz e a Espada".

Jornal Vale Paraibano de 20/04/2003

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